PADRE GABRIEL MAIRE “PREFIRO MORRER PELA VIDA DO QUE VIVER PELA MORTE!” texto de Mauricio Abdalla

Quando a Igreja Católica na América Latina, nos finais da década de 60, descobriu que sua missão em um continente periférico passava pela transformação das relações sociais, econômicas e políticas que determinavam a situação de sofrimento de seu povo, uma nova teologia passou a ser feita a partir dos pobres. A antiga concepção de subdesenvolvimento foi substituída pela noção de dependência e a solução para pobreza de nossos países dependia de um processo de libertação. Analisar o contexto sócio-político, econômico e cultural à luz da fé, da tradição da Igreja e das escrituras, para anunciar uma nova realidade, era fazer uma teologia da libertação.

A força da nova teologia contagiou o pensamento religioso em várias partes do mundo e trouxe novo alento para o trabalho pastoral de leigos, religiosos, padres e bispos. Muitos missionários europeus chegaram à nossa América imbuídos do espírito de uma pastoral popular, crítica e engajada nos diversos movimentos de libertação das classes populares.

Assim, chegou ao Espírito Santo o Pe. Gabriel Maire. Padre francês, entregou-se ao serviço dos pobres de Cariacica, incentivando sua participação nos movimentos sociais, promovendo eventos, fazendo formação política e pregando a fé cristã como elemento de transformação social. Dedicou-se a várias pastorais, dentre elas à Pastoral Operária. Foi a seu convite que eu, em 1987, passei a fazer parte, junto com ele, da equipe de redação do “Boletim Ferramenta”, informativo da Pastoral Operária. Tenho com essa pastoral uma colaboração constante, herança que guardo dele até hoje. Alguns livros, um vidro de perfume francês, um cachimbo, e minha primeira foto com Leonardo Boff, tirada pelo “Gabi”, são as lembranças físicas que ainda guardo dele. Trabalhamos juntos em diversas atividades e estivemos juntos em muitos eventos e manifestações.

O trabalho do Pe. Gabriel colocou-o em oposição aos interesses econômicos e à ganância de muitas empresas interessadas em lucrar sobre o solo cariaciquense. Seu envolvimento com os movimentos de moradia e suas denúncias proféticas contra a especulação imobiliária e a conivência de políticos locais acabaram valendo-lhe a vida, embora a Justiça tenha insistido por décadas que ele tinha sido vítima de latrocínio – embora nada tenha sido roubado de seu carro e até o seu relógio ainda estava no pulso.

A notícia de seu assassinato, no dia 23 de dezembro de 1989 foi um golpe muito forte. Lembro-me da sensação de impotência de que fui tomado diante daqueles que fazem calar as vozes que os denunciam. Mas a voz do Pe. Gabriel foi calada pela violência, pela bala, pela morte. Tristes são aqueles que se calam em vida, por comodismo ou medo, pois impõem a si mesmo a morte que o sistema lhes reserva.

Para homenageá-lo, nossas vozes não podem silenciar. Jamais podemos recuar diante da força dos que exploram e oprimem. Pois, como ele mesmo disse, é preferível “morrer pela vida a viver pela morte”.

Mauricio Abdalla, professor do departamento de filosofia da ufes, educador popular e radialista602729_4045361530502_1071915819_n

PADRE GABRIEL MAIRE “PREFIRO MORRER PELA VIDA DO QUE VIVER PELA MORTE!”
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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Elisabeth
    dez 28, 2014 @ 14:50:24

    Merci pour ce témoignage !!!

    Responder

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